Estou de volta para a minha labuta diária a moldar as mentes dos nossos jovens. Mas existe uma questão que me tem perturbado cada vez mais: "Será que os nossos jovens estão para isso?"
No "meu tempo" de Secundário, e não foi assim há tanto tempo, numa luta que travamos contra as propinas e os exames nacionais, uma senhora chamada Manuela Ferreira Leite, apelidou-nos de "Geração Rasca".
Na altura, vi o "Rasca" como uma ofensa, um nome muito forte e desapropriado.
Hoje no entanto tenho de admitir que era uma luta um bocado absurda. Concordo plenamente com os exames a nível nacional (até acho que devia haver mais) e penso que as propinas são um mal necessário.
No entanto, mal sabiam os nossos governantes o que nos reservava...
Vivo o ensino deste lado da barricada há apenas 3 anos e uns trocos, não era algo que eu ambicionasse de longa data como muitos sabem, mas a vida dá voltas que a razão desconhece e não me arrependo.
Ser professor, para mim, é uma daquelas profissões que conseguem mesmo esculpir o futuro da nossa sociedade. Em cima de nós está depositado grande parte da instrução e a educação dos futuros homens e mulheres de Portugal.
Infelizmente cada vez mais passa por nós a Educação e menos a Instrução...
Mas não divagando, tenho tido alguns alunos que efectivamente estão no ensino para aprender umas coisa, mas uma grande parte anda lá porque os pais obrigam, não querem ir trabalhar, gostam da ideia de ter um papel a dizer 9º ou 12º ano.
A realidade é que o nosso ensino público está recheado de casos destes.
Infelizmente, o estatuto dos Alunos e dos Professores, tem aos poucos protegido exageradamente, a meu ver, para quem não quer aprender. Desprotegendo gradualmente quem realmente quer ser aluno.
Hoje, um aluno, pode ter 100 processos disciplinares, 2000 participações, pode ter um currículo de faltas inacreditável, claramente sem qualquer motivação para o estudo, ter +18 anos e a escola não pode retirar o aluno do ensino enquanto o mesmo continue a querer lá andar. O máximo que se pode fazer é umas suspensões periódicas e no extremo uma transferência de instituição de ensino.
O grande problema, é que esse aluno, directa ou indirectamente afecta os seus restantes colegas, influenciando-os a ter o mesmo comportamento ou então não deixando pura e simplesmente o normal decorrer das aulas.
Esta geração, numa atitude demagógica do governo, está a ser carregada em ombros para o beneficio das estatísticas.
Num futuro não muito longínquo, vamos ter a geração dos analfabetos diplomados...
Em que, cada vez mais o ensino privado vai ganhar vantagem e o desequilíbrio vai ser tal, que voltaremos aos tempos dos nossos avós.
Não é por melhores professores ou equipamento, pois o público também começa a ganhar terreno no equipamento e os professores do público normalmente são os mais experientes. Portanto é mesmo pelos estatutos internos das instituições que não são tão permissivos como acontece no público.
Aqui no público, os alunos praticamente são impedidos de reprovar, por inúmeros mecanismos ridículos e burocráticos implementados por este governo. Isso ainda é mais grosseiro no que diz respeito aos CEF's e Profissionais.
Quando surgiram noticias vindas dos Estados Unidos e de Inglaterra em que as escolas multavam os pais com filhos problemáticos eu ri-me, mas com o tempo e alguma reflexão, penso que não seria assim uma medida tão descabida.
Tendo em conta a desresponsabilizar cada vez maior dos pais perante as acções dos seus filhos, seria uma maneira de efectivamente mexer directamente com a "motivação" de educar os seus rebentos.
Essa desresponsabilização faz com que os comportamentos incorrectos dos filhos perdurarem, por vezes aumentem e definitivamente torne o ambiente de ensino impossível.
Mas poderiamos tornar o Estatuto dos Alunos bem mais eficaz, dando mais poderes à escola e responsabilizar os alunos pelos seus actos.
Estamos a formar homens e temos de ensinar que todas as acções têm consequências, ou seja, nenhum aluno sairia impune de participações disciplinares. Desde logo, dependendo da participação poderia ser logo suspenso 2 dias até à expulsão. Depois haveria as penas alternativas, que teriam de ter a aprovação dos encarregados de educação, que serviriam de remediação em que eles trabalhariam nas instalações da escola, desde 1 semana a 1 mês.
Menos burocracias e mais tempo para os professores prepararem aulas. Eu pessoalmente invisto imenso tempo na preparação de aulas, acho ridículo a quantidade de papelada, reuniões e afins que nos obrigam a fazer para tão pouca produtividade e resultados finais das mesmas.
Criar instituições para casos difíceis, para alunos desmotivados e com graves problemas familiares, com idade já avançada para o ano que frequentam, problemas claros de socialização e falta de sentido de autoridade.
Numa instituição bastante rigorosa, desenhada para estes casos, com residencial, psicólogos e pessoas bem formados para esse tipo de alunos.
Antes de começares a desdenhar, a minha mãe e todos os meus tios viveram em instituições e foram formados lá, são pessoas impressionantes e de grande integridade.
Muita das personalidades menos conseguidas dos nossos jovens, vêm de lares completamente destroçados e problemas bem dramáticos.
Instituições não é o ideal, mas como é óbvio, alguns lares que eu conheço, definitivamente não é melhor.
Calma, calma, tenham calma meus queridos amigos, já conheço a lenga lenga dos bairros sociais.
Mas na minha visão das coisas, para tentar recuperar alguns, estamos a "estragar" dezenas de potenciais bons cidadãos.
Estamos num ponto critico, que em jogo apenas está o futuro do nosso país.
Quem queremos que seja os futuros trabalhadores do nossa pequena republica?
Geração Rasca??! e agora que geração temos nós que enfrentar?